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Médico, CREMESP: 34379

 

Doutor pela Faculdade de Medicina da USP-SP

Coordenador dos ambulatórios de doenças respiratórias ocupacionais, ambientais e de cessação de tabagismo da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da FMUSP-SP

Professor Colaborador da FMUSP

e-mail: pneubiratan@incor.usp.br

Ubiratan de Paula Santos

A indicação de biopsias nas doenças relacionadas ao asbesto

  As doenças relacionadas ao asbesto, reconhecidas sem controvérsias, com evidências consistentes, até o momento são: placas pleurais ou espessamentos pleurais localizados; derrame pleural; espessamento pleural difuso; asbestose ou fibrose pulmonar pelo asbesto; doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC); fibrose de retroperitônio; câncer de pulmão; câncer de laringe; mesotelioma maligno de pleura, pericárdio, peritônio e túnica vaginalis dos testículos; câncer de ovário.

 

  • O diagnóstico de placas pleurais, do derrame pleural e do espessamento pleural difuso são realizados por imagens - radiografia e ou tomografia de tórax (esta mais sensível e específica) - não tem indicações de biópsia por não conter um achado específico. No caso do derrame pleural, excluídas causas cardíaca ou infeciosa, sempre está indicada a punção do líquido com biópsia da pleura para afastar neoplasias. Placas podem ser identificadas em indivíduos que não referem exposição ao asbesto conhecida pois, quando características (bilaterais, calcificadas ou não, por vezes acometendo a pleura diafragmática) em pessoa que trabalhou em indústrias, oficinas, moradores próximos a empresas que manipulavam asbesto, em familiares de trabalhadores em empresas que usavam asbesto, o diagnóstico pode ser estabelecido;

  •   O diagnóstico de fibrose de retroperitônio é realizado por dados clínicos, principalmente dores abdominais, acompanhados de achados na tomografia de abdome;

  •   O diagnóstico de DPOC é clínico e por alterações no exame de função pulmonar que revela a presença de distúrbio ventilatório obstrutivo; a tomografia de tórax também pode auxiliar;

  •   Os diagnósticos dos cânceres são realizados pelos dados clínicos, exames de imagens e por biópsia do local acometido ou mesmo de metástases;   

 

O diagnóstico de asbestose é feito com base na história de exposição ao asbesto ou na ausência dessa, pela existência de marcadores de exposição como placas pleurais, aspectos clínicos sobre a evolução da doença e com achados em exames de imagem- radiografia e ou tomografia de tórax de alta resolução. NÃO há indicação de biópsia, pois os dados de exposição, de imagem e eventualmente da evolução da doença são suficientes. A biopsia não permite distinguir a asbestose de outras fibroses, como as idiopáticas, e tem apresentação diferente de outras pneumoconioses provocadas por carvão, metal duro, berílio, silicatos, ferro. Além de não auxiliar no diagnóstico, a biopsia de pulmão em suspeitas de fibroses como as idiopáticas ou não especificas, quando indicadas, precisam ser feitas por cirurgia com anestesia geral, ou seja, impõe um risco ao paciente que só se justifica se o resultado da biópsia auxiliar na orientação terapêutica, o que não ocorre com a asbestose, fibrose para a qual não existe, até o momento, tratamento para evitar sua progressão ou para obter sua regressão. Achados de corpos de asbesto e contagem de fibras pouco ajudam, pois seu não encontro não descaracteriza o diagnóstico de asbestose, porque nem todos os tipos de fibras formam corpos de asbesto e nem persistem identificáveis no tecido pulmonar, a exemplo das serpentinas. Considero, por essas razoes, ser a mesma desnecessária, e, portanto, a indicação de biópsia um erro.

  Recomendo que em todos os casos que existam dúvidas diagnósticas ou que seja indicada biópsia de pulmão os pacientes solicitem avaliação de um serviço especializado para auxiliar no esclarecimento. Nosso Serviço que atende exclusivamente pacientes pelo SUS está à disposição.

 

São Paulo 19 de maio de 2022