Pandemia

6 de maio de 2022

Sofrimento coletivo nas unidades da Petrobras

  A situação enfrentada pelos trabalhadores nas unidades da Petrobras tem sido descrita pelos profissionais que os atendem como devastadora. "No final de 2020 aconteceram dois casos de suicídio em um mês", afirma a médica Maria Maeno, coordenadora do Projeto de Pesquisa Covid Relacionada ao Trabalho (Dossiê Covid no Trabalho), que acompanhou os casos. E em abril de 2021, houve mais um, totalizando três casos em seis meses. 

  Segundo Antônio Raimundo Telles Santos, secretário de Saúde, Meio Ambiente e Segurança da Federação Única dos Petroleiros (FUP), até o momento foram registrados 15 mil casos de covid nas unidades da Petrobras. O último surto aconteceu este ano, no final de janeiro, quando a empresa tinha 1,5 mil funcionários contaminados segundo a FUP. Números que segundo Raimundo, são fruto da negligência e descaso da direção com os riscos da pandemia, o que somado à aceleração das terceirizações promovida pelo programa de desinvestimento, criou um ambiente de medo e insegurança.

  "A Petrobras promove o sofrimento do trabalhador", diz Raimundo. "As condutas das empresas foram tomadas por conta própria. Na maioria dos casos os trabalhadores tiveram pouca voz, e a vigilância do SUS deixou a desejar", diz Maria. 

  Maria e Raimundo estiveram juntos numa mesa do quarto dia do 11º Congresso de Petroleiros e Petroleiras da Bahia, realizada em abril. Os dois fazem um relato a respeito do suicídio; 

Raimundo mostrando como e porque o colega decidiu pela saída mais radical e triste; e Maria explica como as empresas conseguem esconder os casos de mortes dos registros oficiais, mesmo quando eles são reconhecidos como doença do trabalho. "Como estes dois casos de suicídio, reconhecidos formalmente como relacionados ao trabalho,  mas entendidos pela empresa como não registráveis", diz.

  Os registros de adoecimento e mortes 

das empresas impactam no cálculo do índice para desconto do Fator Acidentário de Prevenção (FAP): quanto mais acidentes, maior será o índice do FAP, que alimenta o fundo que paga os benefícios previstos em casos de adoecimento ou morte em decorrência do trabalho. Foi criado com base no argumento de que se os acidentes "pesassem no bolso", os empresários se esforçariam em evitá-los, mas não é o que acontece. Maria chama a atenção para o fato de que, no Brasil, desde que o FAP foi implementado, de 92% a 94% das empresas tem sido bonificadas. "Ou as condições de trabalho melhoram muito e os acidentes deixaram de acontecer, ou as empresas os escondem", afirma.

  Raimundo explica, de forma bastante didática, o que a negligência da empresa com a covid num contexto de privatização faz com o cotidiano de um trabalhador, as consequências para a sua saúde e ensina como os agir de forma coletiva. 

Denúncias de negligência com a pandemia persistem e se somam à insegurança provocada pelo programa de desinvestimentos da empresa, que acelerou o processo de terceirização

O lucro líquido para os acionistas da Petrobras em 2021, segundo o relatório anual, foi de R$ 106,668 bilhões, 1400 % maior do que em 2020 (R$ 7,108 bilhões). No relatório anual, o crescimento extraordinário é atribuído “principalmente à alta de 77% do preço do Brent (petróleo) em reais no período, aliado a maiores volumes de venda no mercado interno e melhores margens de derivados”. O capítulo sobre o desempenho financeiro conta também que a empresa bateu todos os recordes no ano passado, e destaca a entrada de caixa de US$ 4,8 bilhões com a venda de ativos. Só com a  venda da refinaria RLAM, onde trabalhava um dos petroleiros que cometeu suicídio, a empresa arrecadou US$ 1,8 bilhão. A operação foi concluída em 30 de novembro de 2021 e é um dos destaques apontados no relatório. A RLAM representa 13% da capacidade de refino do Brasil. O relatório não menciona os casos de suicido.

PETROBRAS TEVE LUCRO LÍQUIDO DE MAIS DE R$ 106 BILHÕES ANO PASSADO