Dia do Trabalho

1 de maio de 2022

De volta para as ruas

O movimento sindical está prometendo um ato unificado este ano, e nas ruas. A militância virtual da CUT encheu as mídias na web com chamadas para um “1º de Maio histórico”

  A promessa é do presidente da CUT de São Paulo, Douglas Izzo. Com a possibilidade de voltar para as ruas e alimentados pelo início das campanhas eleitorais para presidente, a militância está animada como há muito não acontecia. 

  O “esquenta” das unidades da CUT começou no início da semana passada com uma onda de instalação de comitês de base pelo país, como ocorreu em São Bernardo do Campo, onde os metalúrgicos retomaram os debates em comitês instalados para lutar pela liberdade de Lula que agora debatem as condições de trabalho, como a reversão da reforma trabalhista e previdenciária, a luta pelo fortalecimento do SUS e pela democratização do trabalho. No Ceará, a Federação dos Trabalhadores Rurais em Agricultura Familiar (Fetraece) anunciou a meta de criar 1560 comitês populares em 183 sindicatos que ela representa, ao menos 6 cada um. O objetivo é discutir questões ligadas ao acesso e permanência na terra e a importância da agricultura familiar.

  O dia vai ter desde a presença de Lula acompanhado pelas lideranças da CUT, Força Sindical, CTB, UGT, NCST, Intersindical - Central da Classe Trabalhadora, e Pública e de representantes de movimentos sociais; de direitos humanos e artistas na Praça Charles Muller, em frente ao estádio do Pacaembu, a mesma onde aconteceu ”o primeiro grande comício pelas Diretas Já!, em 1983”, como avisa o release, até a tradicional Cavalgada do Trabalhador, da comunidade do MST Maila Sabrina, no Norte do Paraná. As centrais tentam promover a união das centrais há pelo menos quatro anos, por meio de articulação no Fórum das Centrais Sindicais, o que consideram a única saída para o trabalhador retomar a luta, mas uma parte importante dos sindicalistas se sente incomodado com a amplitude da frante, chamada pejorativamente de “amplíssima”. Para o ato deste ano, até o presidente da Câmara, Arthur Lira, foi convidado. Ela não recusou, porém não confirmou. As tentativas de unificação do 1º de Maio falharam em 2018 e 2019. Em 2020 e 2021, por conta da pandemia, foi feito um único ato, no ambiente gelatinoso da internet, com cada um no seu quadrado. Até o Fernando Henrique compareceu, mas a unidade não foi real.

  Este ano, se tudo correr como o esperado, São Paulo poderá ser uma grande e iluminada vitrine da frente ampla que Lula tenta articular para derrotar o atual governo nas eleições e o Dia do Trabalho, também o lançamento das pautas que irão nortear a campanha de Lula. “Vamos decidir que país queremos, se um país triste, de desempregados, desalentados, de miseráveis e com um governo que não aponta para soluções para os trabalhadores ou se damos um rumo e recolocarmos o Brasil nos trilhos do desenvolvimento com geração de emprego e renda”, disse Sérgio Nobre, presidente nacional da CUT, em uma entrevista para a Carta Capital na semana passada 

 

QUASE NADA A CELEBRAR

  O único avanço a ser celebrado este ano foram as decisões da Justiça que inocentaram Lula de todas as acusações da Lava a Jato, também acusada pelo Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) por violação de direitos. E nada mais. Com mais de 11 milhões de desempregados, 41% da promovida força de trabalho em vínculos precários

28 de abril - desastre da mina de Farmington2.jpg

DESASTRE DE FARMINGTON 

Em novembro de 1968, uma explosão numa mina de carvão em Farmington (West Virginia, EUA), foi sentida a quase 19 quilômetros de distância e provocou um incêndio que durou mais de uma semana. Dos 99 mineiros que estavam no local, 21 conseguiram fugir mas primeiras horas e 78 morreram. A causa da explosão nunca foi determinada, mas o acidente serviu de catalisador para várias novas leis que foram aprovadas para proteger os mineiros.
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Incêndio durou mais de uma semana. FOTO: Acervo do Departamento de Estado do Trabalho/ Administração de Segurança e Saúde de Minas (MSHA). AUTOR DESCONHECIDO. 

destruição de direitos pelo governo atual, os trabalhadores deixaram a celebração para o patronato e parecem estar colocando todas as suas esperanças na derrota de Bolsonaro por Lula. 

  As celebrações do 28 de abril, quando se lembram das mortes e pregam a segurança e saúde no trabalho, os os eventos foram, na maioria, protocolares, pontuais e as mídias e o espaço público foram ocupadas principalmente por manifestações ligadas  Movimento Abril Verde, que envolve a Justiça do Trabalho, secretarias de saúde de estados e municípios e os sindicatos patronais..

  O programa “Que trabalho é esse?”, da TvT, marcou a data com uma discussão a respeito dos acidentes com barragens em Mariana e Brumadinho, com o auditor fiscal do trabalho Mario Parreiras, responsável pela apuração dos dois casos. As barragens de minérios da Vale se romperam e mataram 19 e 272 pessoas respectivamente, muitos deles trabalhadores das minas. Muito semelhante ao desastre que inspirou a data, ocorrido nas minas de carvão em Farmington e Mannington (West Virginia, EUA) em 1968 e que matou 78 trabalhadores. Embora esta tragédia tenha impulsionado um movimento em busca de maior segurança laboral no mundo todo, a diferença entre ela e a de Mariana e Brumadinho parece estar apenas no número de vítimas, hoje quase quatro vezes maior.

  Hoje, mais de três anos depois, a Vale, responsável pelas duas barragens, foi acusada pela Securities and Exchange Commission (SEC), a agência independente responsável por proteger e regular o mercado de capitais nos Estados Unidos, de mentir sobre a situação de segurança do local antes do desastre, ocorrido em janeiro de 2019. Os processos de indenização e reparo seguem em ritmo lento e periclitante, de forma que 55 vítimas de Mariana faleceram antes de receber a nova moradia prometida pela empresa.

  Em Farmington, na época pouco se soube das circunstâncias da explosão e do incêndio, que durou quase uma semana, mas em 2003 apareceu um memorando de setembro de 1970, em que um inspetor escreve que um alarme de segurança em um ventilador usado para liberar gás metano explosivo da mina havia sido desativado. Ele conclui que: “Portanto, quando o ventilador parava, não havia como alguém saber, porque o sinal de alarme foi ignorado”. Por conta do vazamento, a mina teve de ser lacrada, o que atrasou o início do resgate dos corpos em um ano. O processo todo levou dez anos e conseguiu recuperar os corpos de apenas 59 das 78 vítimas.

  No Brasil, nos últimos 10 anos foram registradas 22.954 mortes em acidentes de trabalho, 4.353 delas entre 2020 e 2021, durante a pandemia, segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho. A contaminação de trabalhadores por COVID, em geral aqueles em atividades essenciais, gerou ainda 33 mil Comunicados de Acidentes de Trabalho (CATs) e 163 mil afastamentos. Estes números são, no entanto, considerados subestimados pelos pesquisadores, pois as notificações dependem fundamentalmente das empresas, por meio das Comunicações de Acidentes de Trabalho (CAT) para os segurados do INSS.  Além disso, estão fora os servidores públicos e os trabalhadores informais; estes últimos, que vivem em situações muito mais precárias, são invisíveis para os registros.

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A CUT vai abrir uma live na página do Facebook de Rogério Matuck para quem não puder ir até o Pacamebu hoje.