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em Unidades de Terapia Intensiva, 43% não receberam ventilação mecânica e 26% não tiveram acesso a qualquer tipo de suporte respiratório. Outros fatores sócio demográficos estavam associados a estas mortes: ser preta, estar no puerpério, viver em área periurbana, não ter acesso a Estratégia Saúde da Família e morar a mais de 100 km do hospital de referência (Menezes et al., 2020).

É consenso a partir das evidências científicas que a gestação e o puerpério são condições de saúde que ampliam o risco de complicações e morte em qualquer doença respiratória, levando mais facilmente a SRAG e não é diferente na COVID-19 (Zambrano et al., 2020). Porém, os dados alarmantes do Brasil, demonstram que algo mais grave que fatores fisiológicos ou biológicos aconteceu por aqui.

As gestantes e puérperas no Brasil, mais que em outros países no mundo, tiveram que lidar também com a falta de políticas públicas adequadas para esse grupo populacional. Entre estas causas assistenciais, estão, além da dificuldade no acesso ao atendimento adequado, a falta de medicamentos e outros insumos terapêuticos, leitos de UTI específicos para a população obstétrica além da completa desorganização do cuidado em serviços de assistência pré-natal. Tivemos suspensão de consultas de pré-natal e puerpério durante a pandemia, dificuldade de acesso a testes diagnósticos, que permitiriam cuidados adequados e em tempo oportuno.Outra questão determinante diz respeito à falta de orientação única e baseada nas melhores evidências relativamente a campanha de 

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Morte materna e Pandemia

da Covid-19 no Brasil:

a importância das políticas públicas de saúde em defesa da vida das mulheres e crianças no Brasil. Manifestação Pública do IWL

Manifesto

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Os últimos anos da Pandemia do SARS-CoV-2 e da COVID-19 no Brasil e no mundo desnudaram uma dura realidade: as mulheres sofrem especialmente neste contexto. Isto tem se dado tanto individualmente, como no mundo do trabalho e nas atividades domésticas (Vieira et al., 2022). 

Entre outros indicadores negativos, o aumento significativo do número de mortes maternas provocadas pela COVID-19 fez soar um importante sinal de alerta no Brasil, que se destacou entre os piores países no enfrentamento à pandemia e no cuidado às gestantes e puérperas. Entre 2020 e 2021, o país foi responsável por 8 entre cada 10 mortes maternas por COVID-19 relatadas no mundo. (Nakamura-Pereira et al., 2020).  Dados do Imperial College London apontam para o surgimento de mais de 300 mil crianças em situação de orfandade no país, com mortes que seriam potencialmente evitáveis.Assistimos um grande número de mortes de mulheres durante a gravidez ou no puerpério e pesquisas importantes apontam a fragilidade do cuidado a este grupo populacional no Brasil (Amorim et al., 2020; Takemoto et al., 2020a; Takemoto et al., 2020b). Um destes estudos analisou os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em mulheres nestas circunstâncias. Entre os resultados (que são muitos), chama a atenção a insuficiência e a desigualdade do acesso destas mulheres aos cuidados de saúde: 6% não foram nem hospitalizadas, 40% não chegaram a ser admitidas 

Karina Calife, Maria Maeno, Alfésio Braga, Cinthia Cristo

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vacinação em gestantes e puérperas. A campanha foi iniciada, mas interrompida por mais tempo que o necessário, por conta de um efeito adverso grave com uma das vacinas disponíveis. A demora em reconhecer o alto risco das mulheres gestantes e puérperas mantidas em trabalho presencial também foi importante, entre outras questões, para nos levar às altas taxas de mortes maternas no país.

A diminuição dos óbitos maternos só aconteceu com a junção de duas atitudes de políticas públicas que devem ser mantidas e reforçadas: a vacinação das gestantes em qualquer idade gestacional e/ou a qualquer tempo do puerpério e o afastamento das gestantes do trabalho presencial.

 A morte materna é sempre uma tragédia, é evitável e afeta toda a sociedade. A morte de mulheres jovens que perdem a vida pela COVID-19 durante a gravidez ou puerpério, entristece e traz danos sociais muito importantes, entre eles, um elevado número de órfãos e órfãs pela morte materna por COVID-19.

Não podemos permitir o retorno dessas mulheres ao trabalho presencial.  As sociedades médicas e o Ministério da Saúde, assim como as secretarias estaduais e municipais, devem se posicionar de forma clara em relação à importância da vacinação das gestantes e evitar que elas sejam obrigadas a trabalhar presencialmente.

A maternidade e a infância devem ser especialmente protegidas, como determina a nossa Constituição Federal.