Médico, CREMESP: 34379

Doutor pela Faculdade de Medicina da USP-SP

Coordenador dos ambulatórios de doenças respiratórias ocupacionais, ambientais e de cessação de tabagismo da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da FMUSP-SP

Professor Colaborador da FMUSP

 

e-mail: pneubiratan@incor.usp.br

Ubiratan de Paula Santos

Pós Covid-19: as sequelas e os impactos da doença na saúde dos trabalhadores

CURSO DESENVOLVIDO PARA O MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO

curso

DESTAQUE

Dentistas podem ser os trabalhadores mais vulneráveis para a forma grave da COVID

Um estudo da Noruega levanta a hipótese de que os dentistas seriam os profissionais mais vulneráveis a forma grave da covid por receberem uma alta carga viral no momento da contaminação. Segundo o estudo, a Noruega registrou entre os dentistas que contraíram COVID, um número de internações sete vezes maior quando comparado com o encontrado em toda a população ativa. O ranking dos mais vulneráveis para as formas graves (com hospitalizações) traz os professores de pré-escola, cuidadores de crianças e motoristas de táxi, ônibus e bonde logo depois dos dentistas, com chances de até 2 vezes maiores de precisarem de tratamento hospitalar.

O estudo Occupational risk of COVID-19 in the first versus second epidemic wave in Norway, 2020  (Risco ocupacional de COVID-19 na primeira versus segunda onda epidêmica na Noruega, 2020), um dos mais amplos até o momento,  investigou o risco ocupacional de COVID-19 e sua gravidade (hospitalizações) para todos os indivíduos da população norueguesa em idade ativa (20-70 anos) empregados em profissões de saúde, educação e ensino, varejo, restauração, viagens, indústrias de turismo e recreação durante as duas ondas epidêmicas na Noruega, ocorridas entre 26 de fevereiro e 18 de dezembro de 2020. Foi um total de 3.559.694 pessoas de 20 a 70 anos residentes na Noruega em 1º de janeiro de 2020 (4.715.542 contratos de trabalho registrados), 51% delas homens.

Os pesquisadores alertam que a razão da maior vulnerabilidade dos dentistas noruegueses ainda é uma hipótese que carece de investigação e que, embora os resultados possam ser válidos para populações de outros países, é preciso incluir algumas ressalvas relacionadas a diferenças nas medidas de controle e proteção adotadas. De forma geral, os resultados mostram que houve um padrão diferente para os riscos ocupacionais entre as duas ondas de contaminação, sendo que os motoristas (de ônibus, bonde e táxi) aparecem como vulneráveis nas duas ondas, com chances entre 1,2 e 2,1 vezes maiores do que todos os trabalhadores noruegueses em idade ativa de contrair a doença.

Os profissionais de saúde (enfermeiros, médicos, dentistas e fisioterapeutas) tiveram 2 a 3,5 vezes mais chances de contrair COVID-19, o maior registro, porém apenas durante a primeira onda. Os garçons, atendentes de balcão de alimentação, condutores de transporte, comissários de viagem, cuidadores de crianças, professores de pré-escola e ensino fundamental, que na primeira onda não apresentaram riscos maiores do que o de todos os ativos, na segunda onda tiveram de 1,1 a 2 vezes mais chances de se infectarem e estão no topo do ranking do período. Motoristas de ônibus, bonde ou taxi, cuidadores e professores de crianças, médicos, cabeleireiros, enfermeiros, assistentes de loja de vendas e faxineiros tiveram risco ligeiramente maior do que experimentaram na primeira onda, com chances de 1,1 e 1,5 maiores.

Os pesquisadores acreditam que essas descobertas podem ser relevantes para aumentar a compreensão das configurações de risco e transmissão do COVID-19, e contribuir assim, para a adoção de medidas melhor direcionadas para diminuir a transmissão  em ambientes públicos.

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  O médico pneumologista Ubiratan de Paula Santos faz uma compilação dos estudos relacionados à covid nos ambientes de trabalho neste curso, que trata dos impactos da doença na saúde de trabalhadores, revelando as profissões que envolvem um risco maior de infecção e quais são os problemas mais comuns dos que ficam com sequelas. Separamos abaixo as descobertas comuns das condições de transmissão, atividades de maior risco e para os que ficam com sequelas, quais os sintomas persistentes mais comuns. Mais informações a respeito dos

estudos compilados e explicações mais detalhadas dos impactos no corpo humano, assista à apresentação nesta página.

De forma geral, quanto maior o número de contatos do trabalhador com outras pessoas, maior será o risco de se infectar. Ele corre mais risco também se trabalhar em locais fechados e mal ventilados, mesmo se usar máscaras. Com relação aos danos à sua saúde, os estudos mostram que o vírus causa uma síndrome multissistêmica no organismo humano, ou seja, afeta mais de um sistema, com prejuízos físico, mental, emocional, social e econômico.

EM AMBIENTES FECHADOS

A contaminação ocorre principalmente em função da presença de micro gotículas e de aerossóis (partículas) liberadas durante a respiração, a fala, a tosse ou espirro de um infectado.

• Podem permanecer 3 horas ou mais no ar, na forma de aerossol

• Transmissão pode ser direta pela inalação e em menor risco pelo contato com mãos infectadas

• A infecção iniciada nas vias aéreas inferiores (brônquios e bronquílos) tende a ser mais grave do que a iniciada nas vias aéreas superiores (boca, nariz, faringe, laringe e parte superior da traqueia)

• Em ambiente não ventilado o decaimento pela metade das partículas demora 5 minutos, contra 30 segundos no ventilado

ORIENTAÇÕES PARA CONTROLE

• Fazer os registros sistemáticos de Temperatura, Umidade Relativa e Absoluta do ar (URar, UAar)

• Manter temperatura entre 20 e 25ºC e URar acima de 50%

• A taxa de ventilação deve ser calculada considerando o número de usuários do ambiente

• Nas viagens de ônibus, taxis: os vidros, escapes e entradas de ar devem ficar abertas e as pessoas devem usar máscaras

• É preciso manter distanciamento físico (1,5 m) entre pessoas no trabalho e no transporte

• Uso de refrigeradores/circuladores de ar tipo Split não servem para ambientes de uso comum

• Reduzir exposição aos poluentes

Estudo realizado no Reino Unido revelou que PESSOAS QUE TIVERAM COVID TEM MAIS RISCO DE INTERNAÇÃO após a fase aguda da doença e APRESENTAM MAIOES RISCOS DE SEQUELAS

Os riscos são 7,55 vezes maiores para insuficiência Respiratória; 5,66 vezes para fadiga; 4,43 vezes mais de Hipertensão. As dificuldades com a memória ocorrem de 2,63 vezes a 3,13 vezes mais com quem teve covid, as chances de desenvolver lesão renal são 2,59 vezes maiores e de ter a saúde mental afetada, 2,5 vezes maior. Há ainda riscos 1,47 maiores para hipercoagulabilidade e 2,19 maiores para arritmia cardíaca.

SINTOMAS COMUNS DE PÓS-COVID

Acima de 4 meses depois da confirmação do diagnóstico

NEUROPSIQUIÁTRICA

Síndrome do estresse pós-traumático (30,2%)

episódio depressivo (17,3%)

Insônia (26%)

Anosmia (11%)

Ansiedade (7%)

Tontura (6%)

Cefaleia (2%)

Concentração, memoria, função executiva e linguagem

DERMATOLÓGICA

Perda cabelo - Telogen effluvium (17-34%)

CATEGORIAS/AMBIENTES DE MAIOR RISCO

• Profissionais da saúde

• Trabalhadores da área de transporte

• Trabalhadores ambientes fechados com baixas temperaturas (frigoríficos)

• Escolas

RISCO PARA TRABALHADORES EM SERVIÇOS ESSENCIAS x NÃO ESSENCIAIS (*)

• equipe de apoio médica – 8,70 vezes mais (4,87 – 15,55)

• trabalhador da saúde - 7,43 vezes mais  (5,52-10,00)

• trabalhador social – 2,46 vezes mais (1,47 – 4,14)

• transportes –2,20 vezes mais

(1,21 – 4,00)

• áreas social e educação – 1,84 vezes mais (1,21 - 2.82)

(*) Risco relativo quando comparado com a população geral